Durante anos, produtividade foi associada à capacidade de fazer mais em menos tempo. Agora, com a inteligência artificial assumindo parte crescente das atividades operacionais, uma nova pergunta começa a ganhar importância dentro das empresas: quando a tecnologia devolve tempo às pessoas, para onde esse tempo está indo?
Uma pesquisa brasileira divulgada em setembro de 2026 ajuda a dimensionar essa transformação. O levantamento realizado pela LG lugar de gente em parceria com a FIA Business School ouviu 1.130 profissionais durante o CONARH 2026 e identificou que o uso da inteligência artificial já está liberando, em média, 5,4 horas por semana por profissional de RH. Isso representa aproximadamente 12% de uma jornada de 44 horas.
E o potencial estimado é ainda maior: com o avanço das soluções, outras 8,4 horas semanais poderiam ser recuperadas, levando a cerca de 31% da jornada redirecionada para atividades de maior valor, liderança, cultura e retenção.
Embora a pesquisa tenha sido realizada com profissionais de Recursos Humanos, ela revela uma discussão muito mais ampla sobre produtividade executiva.
Porque economizar tempo não significa, necessariamente, utilizá-lo melhor.
A IA já está entrando na rotina das empresas brasileiras.
Outro levantamento recente, realizado pela SAP em parceria com a Oxford Economics, mostra que a inteligência artificial já oferece algum tipo de suporte a 26% das tarefas realizadas nas empresas brasileiras pesquisadas. A expectativa dos executivos ouvidos é que essa participação chegue a 44% nos próximos dois anos. O investimento também está aumentando.
Segundo o estudo, as organizações brasileiras pesquisadas pretendem ampliar em 46% seus investimentos em IA nos próximos dois anos. Mas existe um contraste importante. Apesar da expansão acelerada da tecnologia, apenas 3% dos executivos entrevistados se consideram totalmente preparados para utilizá-la em suas rotinas.
Ou seja: a tecnologia está avançando mais rapidamente do que a capacidade das organizações de redesenhar a forma como o trabalho acontece.
O problema pode não estar mais na execução
Esse cenário traz uma provocação especialmente relevante para empresários e executivos. Imagine que uma ferramenta permita produzir em quinze minutos algo que antes levava uma hora. O que acontece com os outros 45 minutos? Eles são direcionados para estratégia? Relacionamento com clientes? Desenvolvimento da equipe? Novos negócios? Tomada de decisão? Ou simplesmente são preenchidos por outras demandas operacionais?
Essa diferença é fundamental. Porque existe o risco de utilizarmos ferramentas extremamente avançadas apenas para executar mais rapidamente uma rotina que continua mal estruturada.
A FGV vem chamando atenção justamente para essa questão. Pesquisa publicada em 2026 sobre maturidade organizacional em Big Data e inteligência artificial identificou sete dimensões necessárias para que empresas consigam transformar tecnologia e dados em decisões estratégicas.
Entre elas estão estratégia e liderança, governança, processos, tecnologia, pessoas e cultura.
O aprendizado é claro: ferramenta sem estrutura não necessariamente gera transformação.
Produtividade executiva não deveria ser produtividade operacional
Para quem ocupa uma posição de liderança, existe ainda uma questão adicional. Nem toda hora economizada possui o mesmo valor. Uma hora retirada de tarefas administrativas/operacionais e direcionada para uma decisão estratégica pode produzir um impacto muito maior do que uma hora utilizada para executar ainda mais tarefas.
Por isso, talvez a discussão sobre IA e produtividade esteja excessivamente concentrada em: “quanto tempo conseguimos economizar?” Quando deveria avançar para: “para quais atividades queremos devolver esse tempo?”
Essa mudança de perspectiva é importante porque muitos executivos continuam funcionando como ponto central de suas próprias operações. Acompanham pessoalmente pendências. Cobram retornos. Organizam compromissos. Respondem mensagens. Pesquisam fornecedores. Controlam viagens. Revisam pequenas demandas. Fazem follow-ups. Tomam decisões que poderiam chegar até eles já estruturadas.
São tarefas que precisam ser realizadas. Mas não necessariamente por eles.
IA e delegação deveriam trabalhar juntas
A tecnologia pode acelerar execução. A delegação pode retirar da liderança aquilo que não precisa depender dela. E uma operação estruturada pode garantir que as demandas continuem avançando sem exigir intervenção constante do executivo.
São três camadas diferentes. Tecnologia: acelera. Delegação: redistribui. Gestão: garante continuidade.
Quando essas três dimensões trabalham juntas, surge uma forma mais sofisticada de produtividade.
O executivo deixa de perguntar: “Como consigo fazer isso mais rápido?” e passa a perguntar: “Isso realmente precisa ser feito por mim?”
Essa talvez seja uma das perguntas mais importantes da gestão contemporânea.
O novo luxo executivo pode ser atenção disponível
A 29ª CEO Survey da PwC mostra que os líderes brasileiros também estão lidando com desafios relevantes de pessoas: 28,7% dos CEOs brasileiros pesquisados enxergam risco significativo de perda financeira pela falta de talentos; 33% afirmam não conseguir contratar os profissionais necessários para sustentar a transformação e 36% relatam dificuldades de retenção que afetam o desempenho operacional.
Em um cenário assim, o papel da liderança tende a se tornar ainda mais importante. Estratégia, relacionamento, desenvolvimento de pessoas, decisões complexas e construção de confiança continuam exigindo algo que nenhuma agenda sobrecarregada consegue produzir indefinidamente: atenção de qualidade.
É por isso que, na Remottas, enxergamos tecnologia como parte da produtividade — mas não como seu objetivo final. A lógica da nossa metodologia utilizada, é compreender a rotina, mapear o que consome tempo, enxergar gargalos e quick wins, estruturar processos e transferir atividades que não precisam permanecer centralizadas no executivo.
IA pode fazer parte, em alguns momentos, dessa estrutura. Assim como uma assessoria qualificada e eficiente. Mas o indicador final é ser outro: quanto tempo de qualidade conseguimos devolver à liderança para aquilo que realmente exige sua atuação?
Porque talvez a maior oportunidade trazida pela inteligência artificial não seja permitir que executivos façam mais. Talvez seja finalmente permitir que façam menos do operacional e mais daquilo que somente eles podem fazer.
Fontes: LG lugar de gente + FIA Business School, levantamento apresentado no CONARH 2026; SAP + Oxford Economics, pesquisa sobre IA nas empresas brasileiras, 2026; FGV, estudo sobre maturidade em Big Data e IA, julho de 2026; PwC, 29ª CEO Survey — recorte brasileiro sobre IA e gestão de pessoas, agosto de 2026.